Formulas para emagrecer podem causar problemas à Tireóide

O tempo esquenta e a chegada do verão anuncia menos roupa, ameaçando pôr em evidência as gordurinhas amealhadas no inverno.
Essa equação já basta para que muita gente recorra a fórmulas mágicas que prometem derreter o excesso de peso. E é aí que mora o perigo, revela pesquisa divulgada no Congresso Mundial de Tireóide, realizado em Buenos Aires (Argentina).
Pelo estudo, que avaliou 1.292 mulheres a partir dos 35 anos no Rio de Janeiro, 34% das entrevistadas já haviam usado alguma fórmula manipulada para emagrecer, 12% delas nos dois meses anteriores. Embora altos, os índices não chegaram a surpreender os pesquisadores.
O que chamou a atenção foi que o levantamento revelou mais de 80 substâncias diferentes usadas nas fórmulas para emagrecer, entre elas o triac (ácido triiodotiroácetico ou tiratricol) e o hormônio T3, que suprimem o TSH (hormônio da tireóide) e causam hipertiroidismo (veja quadro), uma disfunção da glândula tireóide.
“Acho que as mulheres não têm a menor idéia do que estão tomando e, mesmo que tivessem, a maioria ainda correria o risco, por vaidade”, acredita o endocrinologista Mário Vaisman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que conduziu a pesquisa com a epidemiologista Rosely Sichieri, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sob o patrocínio dos laboratório Abbott.
A pesquisa mostrou que o risco de desenvolver o hipertireoidismo era duas vezes maior nas mulheres que tomavam fórmulas para emagrecer (veja quadro). Ainda que os sintomas desaparecessem quatro semanas após a interrupção do tratamento, os médicos chamam a atenção para os riscos de doenças cardíacas em mulheres acima dos 40 ou 50 anos.“Os riscos aumentam mais à medida que idade avança; por isso é assustador que mulheres na faixa dos 50, 60 e 70 anos estejam engrossando essa lista”, diz Mário Vaisman. O próximo passo, segundo os pesquisadores, é descobrir que tipo de danos permanentes podem ocorrer com o uso prolongado –mesmo que interrompido por alguns meses.
O endocrinologista Marcio Mancini, da Universidade de São Paulo e da Abeso (Associação Brasileira de Estudos da Obesidade), conta que já atendeu uma paciente que vinha com um “histórico” de 30 anos de fórmulas para emagrecer. “Ela tomava por seis meses e parava outros seis meses. Infelizmente, gente assim não é exceção”, lamenta.

Truque
O maior problema é a falta de critério na hora de receitar. “Infelizmente, há colegas que não pedem exames complementares e emitem receitas misturando um número sem fim de componentes. Já vi formulações com 15, 20, 30 coisas diferentes”, diz Mancini.
Em geral, as fórmulas agregam substâncias para reduzir o apetite, ativar o funcionamento da tireóide, aumentar a saciedade, laxantes, diuréticos, ansiolíticos (para diminuir a ansiedade) e antidepressivos, entre outros. Para driblar a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que proibiu a associação de medicamentos em uma única cápsula, muitos médicos desdobram a fórmula em três ou quatro receitas diferentes.
Antes de conhecer os resultados da pesquisa do Rio de Janeiro, a Abeso já havia publicado um manifesto recomendando que os hormônios tiroidianos e de triac fossem proibidos nas farmácias de manipulação, uma vez que as marcas comerciais existentes são suficientes para a população que realmente necessita.
Até porque, segundo Mancini, incluir hormônio para ativar a tireóide é, além de tudo, uma falta de conhecimento. “Ninguém é obeso por causa da tireóide. Quem tem realmente o problema ganha, no máximo, 5 kg e aí, sim, controla com tratamento.” Um dos grandes problemas do uso prolongado de fórmulas para emagrecer que incluem hormônio da tireóide é que pode haver uma perda óssea muito maior do que a normal. Além disso, sua associação com inibidores de apetite provocam aumento da ocorrência de taquicardia e arritmias. O estudo apresentado em Buenos Aires tinha, na verdade, como principal finalidade fazer um levantamento epidemiológico sobre hipotiroidismo na população feminina brasileira. Mais de 12% das mulheres acima dos 35 anos têm a doença e cerca de 85% não sabiam, números preocupantes segundo os coordenadores da pesquisa. O resultado, de acordo com os médicos, mostra a necessidade de uma política de saúde pública em relação à tiróide. “Atualmente, não há nenhum tipo de recomendação de exame periódico, como nos EUA, por exemplo, onde as mulheres são aconselhadas a fazer testes a cada cinco anos depois dos 35”, compara Mário Vaisman.
Com uma medida dessas, diz Vaisman, o hipotiroidismo seria diagnosticado precocemente e controlado, já que o tratamento não adequado pode trazer sérios problemas ao cérebro, ao aparelho reprodutor e à estrutura óssea.



Revista da Folha - 6 de Novembro de 2005

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